O post (natalino) de hoje é sobre um dos discos mais conceituados do rock progressivo português e, quiça, mundial: “Mistérios e Maravilhas”, da banda portuguesa Tantra.
Lançado em Novembro de 1977, pelo selo Valentim de Camargo/EMI, numa época em que o movimento punk (e a mídia, diga-se de passagem) destruía o rock em geral, principalmente o progressivo, o álbum contém fortes influências de bandas como Gênesis, Yes e Pink Floyd. É quase todo instrumental, somente duas faixas possuem letras: “À beira do fim” e “Partir Sempre”, coincidentemente a primeira e a última faixa, respectivamente. Mas nem por isso, deixa de ser um excelente álbum, apesar de todo o clichê que um álbum progressivo pode ter: faixas longas, com belas harmonias instrumentais e (embora poucas) vocais, farto uso de sintetizadores, etc. Todas as seis faixas são excelentes, tendo destaque para as faixas “À beira do fim” com um belo trabalho vocal, a faixa-título “Mistérios e Maravilhas” com uma empolgante linha de sintetizador e “Máquina da Felicidade”.
“Mistérios e Maravilhas” foi lançado num momento em que o progressivo estava em decadência, como já fora citado. Mas surpreendeu pelo seu sucesso. Sucesso este que pode ser creditado ao próprio estágio em que o Rock se encontrava em Portugal. Antes da Revolução de Abril de 1974 (Mais conhecida como “Revolução dos Cravos”), o rock em Portugal, com poucas exceções, era baseado nos covers de bandas estrangeiras, como Beatles e Beach Boys, com apresentações em clubes ou pequenos teatros. De acordo com Aristides Duarte, em seu livro “Memórias do Rock Português”, o regime salazarista apenas tolerava o rock, mas que dava o ar da graça através da sua censura, como foi no caso do álbum de estréia do Quarteto 1111 e nas permissões para a apresentação de grupos estrangeiros. Ainda segundo Duarte, muitos grupos eram desfeitos por causa da guerra colonial e, mais tarde, por causa do engajamento na luta pelo fim do salazarismo. Somente após 1975 que começa a existir um rock, de fato, português. E o progressivo em Portugal, curiosamente, teve como um dos seus impulsos as apresentações do Genesis em terras portuguesas, no ano de 1975. Também teve início ao surgimento de várias bandas que seguiam essa vertente. E uma delas foi o Tantra, que surgiu em 1976 com o lançamento do compacto “Alquimia da Luz/Novos Tempos”. Quando do lançamento de “Mistérios e Maravilhas”, a formação do Tantra era Américo Luís (Guitarra e baixo), Manuel Cardoso (Frodo e guitarra), Armanda Gama (Órgão, teclados e sintetizadores) e Tozé Almeida (Bateria). Pelo fato de o som do rock progressivo ser uma novidade em Portugal, o disco (bem como todo o gênero em si) teve uma boa receptividade no momento em que foi lançado, contrastando com o momento em que o prog rock passava em nível mundial. Em uma entrevista para o site “A Nossa Música”, de 2003, Manuel Cardoso fala sobre esse sucesso obtido com o álbum:
“(...) a música de intervenção dominou a cena e viveram-se tempos muito estranhos. Durante o primeiro ano, quando as pessoas iam ver pela primeira vez, ficavam de olhos esbugalhados a olhar para nós e as reacções iam surgindo a medo. Era engraçado vê-los pregados ao chão, admirados. Mas no final, quando já estavam mais relaxados batiam palmas, entusiasmados. Claro que isto só aconteceu durante os primeiros tempos porque quando deixamos de ser novidade, as pessoas já vinham aos concertos à procura de diversão e prazer. Foram anos muito bons em que chegávamos a tocar para cerca de três mil pessoas na província, o que não era muito normal na altura. As pessoas ficaram orgulhosas por ter uma banda portuguesa com aquele tipo ou sonoridade, diferente e com nível. Na altura dava-se muito valor à qualidade, coisa que hoje em dia, com a pressão dos meios comerciais, se torna menos importante.”
O álbum ganhou reconhecimento em todo o país e, posteriormente, em nível mundial, diga-se de passagem, sendo considerado um dos cem maiores da música portuguesa. O Tantra lançou mais dois discos (“Holocausto”, de 1978 e “Humanoid Flesh”, de 1981) até encerrar atividades em 1981. Mas o grupo foi reformado em 2003, tendo Manuel Cardoso como único membro original ainda remanescente na banda.
Este álbum, sem dúvida, mostra que Portugal tinha (e ainda tem) um rock de primeira linha e que o país não vive só de fado e do conhecido “vira-vira”.
Curtam!
E aos freqüentadores do blog, um natal cheio de luz, felicidades, muito rock in roll e que não se esqueçam de lembrar do verdadeiro sentido do natal: o nascimento daquele que há 2010 anos nos abençoa sempre.


FAIXAS:
01 - À Beira do Fim
02 - Aventuras de um Dragão num Aquário
03 - Mistérios e Maravilhas
04 - Máquina da Felicidade
05 - Variações Sobre uma Galáxia
06 - Partir Sempre
Tantra, sem sombra de dúvidas a melhor banda de rock progressivo da língua portuguesa!
ResponderExcluirMas eu sou suspeito... é, eu sou mesmo aquele da assinaturinha no canto inferior direito da capa, o trabalho de uma criança imberbe de 19 anos de idade... incluida nas das dez melhores capas de sempre da cena do rock português numa votação de 2005.
Que legal a sua ilustre visita, Miguel. Tantra se não for a melhor, é uma das melhores do cenário prog português. Mistérios e Maravilhas definitivamente é uma obra de arte.
ResponderExcluirObrigado pela visita!