No post anterior, tinha dito que o rock brasileiro dos anos 70 só é lembrado quando se fala de Raul Seixas ou de Rita Lee. Pois bem, o post de hoje é sobre Rita Lee, porém de um “álbum”(ainda trata-se de um boot) ainda obscuro no cenário brasileiro. Trata-se de “Cilibrinas do Éden”, um álbum (não-oficial) dela em parceria de Lúcia Turnbull.
A história do álbum começa após a saída de Rita Lee dos Mutantes, em 1973, diante da mudança musical da banda para o rock progressivo. Ela pensava em montar uma banda somente composta por mulheres. Não deu certo. Por conta do famoso festival Phono 73 (realizado no Palácio de convenções do Anhembi com todos os contratados da Philips, de
Algum tempo depois (não se sabe se foi no final de 1973 ou começo de 1974), a dupla entra em estúdio e gravam dez faixas para um novo álbum, contando com a participação do guitarrista Luiz Carlini, do bateirista Emilson e do baixista Lee Marcucci. Lúcia e Rita (óbvio) fizeram os vocais, sendo que a última também assumiu os teclados e violões. Apesar disso, houve dois destinos diferentes para o álbum: o negativo ficou por conta do veto do lançamento deste álbum por parte do presidente da Philips, André Midani, fato este que fez surgir a lenda de que Rita, acompanhada do amigo Tim Maia, teria destruído o gabinete de André Midani. O positivo é que este álbum foi o embrião daquela que viria a ser pouco tempo depois a banda Tutti-Frutti, que acompanhou Rita Lee até 1977. O fato é que as masters do álbum estão arquivadas até hoje na gravadora Universal, que detém os direitos das obras que eram da gravadora Philips.
Em 2008, um grupo de brasileiros e europeus fãs de Rita Lee lançam de forma não-oficial, o álbum intitulando-o “Cilibrinas do Éden”. Com a prensagem de “apenas” 500 cópias, o “lançamento” foi feito devido ao fato de a Universal não ter cumprido a promessa de lançar o disco de forma oficial em 2001.
O álbum em si é uma miscelânea de rock semi-progressivo, meio que hard-rock, letras fortes e rebeldes, ótima instrumentalização e um som bem simples. Muitas destas faixas, por conta do não-lançamento do álbum, foram aproveitados em outros trabalhos de Rita Lee. “Mamãe Natureza” foi aproveitado no primeiro álbum já com o Tutti-Frutti (Atrás do porto tem uma cidade, de 1974), porém com arranjos diferentes. “Bad Trip (ainda bem)” serviu de base para “Shangri-lá”, lançada nos anos 80. “Nessa Altura dos Acontecimentos” foi parar numa coletânea da cantora datado de 1981. Para completar, “Gente fina é outra coisa” vira, em 1977, “Locomotivas”, usada na novela de mesmo nome exibida na Rede Globo. Está música sofreu duas vezes com a censura por conta do trecho "Não vá se misturar/ Com esses meninos cabeludos que só pensam em tocar/ E você escuta o papai dizendo/ Que gente fina é outra coisa... Hoje mesmo te vi/ pensei que fosse seu pai/ Não, não, não, mas que decepção/ Eu fiquei triste de ver/ A sua vida começando pelo lado errado". O censor José do Carmo Andrade usou, em cada análise respectivamente, os seguintes argumentos:
"Na letra em exame, uma jovem insurge-se contra o pátrio-poder, ao tentar persuadir um amigo a desacreditar de seu pai para juntar-se a um grupo juvenil de comportamento duvidoso”(José do Carmo Andrade , 30 de agosto de 1973)
"Apresenta conotação anárquica... sua liberação poderia acarretar uma desagregação social e familiar, de consequências negativas"(Idem, novembro de 1973)
E não esquecendo das faixas “Minha fama de mau”, uma regravação da canção de Erasmo Carlos, e da faixa-título, que fecha o disco de forma brilhante.
Enfim é um álbum que vale a pena ser ouvido e que é um excelente documento de memória da música brasileira, bem como do rock setentista brasileiro. Enquanto isso, espera-se pelo lançamento oficial do álbum, o que ainda deve demorar e muito. Curtam!
Aproveito para dar créditos ao Jô Rocha e JH II, do site Lágrima Psicodélica, por terem tido o trabalho de garimpar e disponibilizar esta preciosidade da música brasileira, garanto que não deve ter sido um trabalho fácil.
Fontes para o texto: Lagrima Psicodélica, O Globo On Line (Edições de 13/04/2008 e 14/04/2008) e O Esquema


Faixas:
02 - E Você Ainda Duvida
03 - Minha Fama de Mau
04 - Gente Fina É Outra Coisa
05 - Paixão Da Minha Existência Atribulada
06 - Festival Divino
07 - Bad Trip (Ainda Bem)
08 - Nessas Alturas Dos Acontecimentos
09 - Vamos Voltar Ao Princípio Porque Lá É O Fim
10 - Cilibrinas Do Éden
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